Antonio Candido já defendeu que aquilo que buscamos nas obras literárias é a organização. Um romance, por exemplo, é um todo acabado — tem começo, meio e fim — e promove uma síntese de experiências que, em nossas vidas, só seria possível após a morte. Numa sessão de RPG, ou ao longo de várias delas, ocorre essa mesma síntese de experiências. Ao criar histórias estruturadas, narrador e jogadores praticam uma ordenação de suas próprias mentes.
Mas a riqueza da prática do RPG não se esgota aí. Para abordar rapidamente parte dessa riqueza, o RPG constitui uma atividade não competitiva, um jogo no qual não há ganhadores nem perdedores, pois todos os participantes cooperam em prol de um objetivo comum. “Ganha-se” o jogo toda vez que o grupo ultrapassa os obstáculos criados pelo narrador ao longo da aventura. Os jogadores não demoram a perceber que a chave para se vencer no RPG é a informação. Nesse ponto, a literatura e outros materiais de pesquisa se insinuam no jogo como fonte de informações importantes.
As descrições do narrador estimulam a capacidade de abstração; a interpretação de um personagem ajuda a diminuir a distância entre o eu e o outro, promovendo a virtude da tolerância; desenvolve-se um senso de responsabilidade, pois cada ato de cada personagem tem sua conseqüência; vivenciam-se questões éticas, morais e filosóficas; é uma prática eminentemente de caráter multidisciplinar, pois informações das mais variadas fontes e áreas do conhecimento são utilizadas pelos participantes para que seus personagens superem os obstáculos criados e propostos pelo narrador.
O praticante de RPG acostuma-se a resolver problemas e a tomar atitudes empreendedoras, pois é desafiado continuamente no âmbito da ficção coletiva. Ao dar voz a seu personagem, ele exercita a articulação e outras habilidades relacionadas ao debate e à persuasão. Ao criar a história pregressa de um personagem, ele pesquisa, lê, escreve e desenvolve textos narrativos.
|